sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"Livro impresso vai desaparecer em até 15 anos", diz cientista na ABL


A crescente expansão do mercado de livros digitais no Brasil aliada à tendência de barateamento de tablets e demais computadores portáteis que permitem a leitura em qualquer lugar do mundo deve fazer com que os livros impressos desapareçam em até 15 anos.

A previsão do cientista da computação Silvio Meira, especialista em tecnologia da informação e estudioso da área, assustou a plateia da Academia Brasileira de Letras durante o Seminário "O futuro do livro: papel ou chip?", realizado na noite da última quarta-feira (14).

"Não há o que temer. Não há como o livro escapar a esta transformação, que se impõe como inevitável no mundo inteiro", afirmou Meira, ao defender o formato digital.

Pioneiro na venda de livros digitais no Brasil, Carlos Eduardo Ernanny, proprietário da editora Gato Sabido (a primeira livraria digital do país) e da Xerife (primeira distribuidora de livros digitais no Brasil), alertou para a crescente participação do livro digital na economia mundial.

"Em apenas dois anos, os EUA tiveram um aumento de nove milhões de e-books vendidos em 2009 para 112 milhões em 2011. A participação das vendas de livros digitais no Brasil hoje é de 1,5%. No próximo ano o percentual deve chegar pelo menos a 5%", apontou Ernanny .

A editora Companhia das Letras, por exemplo, teve 40% dos exemplares da biografia do Steve Jobs vendidos em formato digital. A grande possibilidade da Apple montar uma fábrica no Brasil também foi relembrada pelos participantes do seminário como um fator de colaboração com este novo cenário virtual.

Necessidade de transformação

Silvio Meira apontou para a necessidade de se criar livros eletrônicos sem a linearidade dos livros impressos. "No computador, eu tenho que poder ler os fascículos separadamente. Não podemos ser obrigados a manter a mesma linearidade dos livros impressos. Ainda há muito o que ser aperfeiçoado, mas a transformação é inevitável. Uma outras questão que merece destaque é a de que resumos de livros muito longos podem vender mais do que os próprios livros, com o repasse de uma participação para os autores dos livros", sugeriu o cientista.

Disponível em: http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/noticias/2011/12/15/livro-impresso-vai-desaparecer-em-ate-15-anos-diz-cientista-na-abl/

Digital e em inglês, o cordel cai no mundo

Tradição nordestina ganha espaço na rede com obras completas disponibilizadas por várias instituições no Brasil e até mesmo nos Estados Unidos.

Por enquanto.Popularizada em feiras livres da Região Nordeste do Brasil, onde seus folhetos impressos em papel pardo adornados por xilogravuras ficavam expostos em varais, a literatura de cordel também pode ser acessada via internet. Uma das principais fontes para esse acesso é a Fundação Casa de Rui Barbosa, localizada no Rio de Janeiro. Repositório de literatura popular desde 1989, o órgão disponibilizou parte do acervo de 9 mil folhetos em um site especialmente construído para facilitar o acesso remoto.

Segundo Dilza Ramos Bastos, chefe de Serviço de Biblioteca da instituição, o trabalho começou em 2001. Inicialmente, a ideia era divulgar o material por meio de CDs e, depois, migrou para a rede. A digitalização foi uma medida importante para a preservação do próprio acervo, que passou a ser menos manipulado por pesquisadores. “Nós diminuímos a manipulação e facilitamos o acesso à informação visual do texto e das ilustrações”, explica. “Hoje são raros os casos em que precisamos dar acesso direto ao documento.”

Dos romances ibéricos aos repentes

A origem exata da literatura de cordel é difícil de ser pontuada. Formas literárias similares são encontradas em outros países, como França, Espanha e Portugal. Os romances ibéricos em versos, oriundos da tradição oral e posteriormente impressos em folhetos, e os desafios improvisados do Nordeste, são indicados por pesquisadores como algumas das forças criadoras do cordel.

Surgido na primeira metade do século XIX em Pernambuco e na Bahia, a forma clássica do cordel atingiu o auge da produção entre 1930 e 1960. Impressos em papel barato, os folhetos de cordel mediam cerca de 12×18 centímetros e possuíam de oito a 32 páginas, ilustradas com imagens reproduzidas de jornais ou xilogravuras.

Seus versos rimados relatavam desde temas tradicionais (como os romances de cavalaria medieval) até eventos sociais, econômicos e políticos brasileiros, como o fenômeno do cangaço ou o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954.Um dos primeiros cordelistas a imprimir e vender seus versos foi o paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), autor de Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, publicado, provavelmente, em 1889. Tal -folheto pode ser lido e impresso na íntegra pelo usuário por meio do site da Fundação Casa de Rui Barbosa (www.casaruibarbosa.gov.br/cordel).

Até no Congressso norte-americano

Outras instituições como a Fundação Joaquim Nabuco, a Academia Brasileira de Literatura de Cordel e até mesmo a Biblioteca do Congresso norte-americano possuem acervos digitais semelhantes.

Atualmente, existem 2.340 folhetos digitalizados no banco de dados virtual da instituição, inaugurado em julho de 2008. A escolha das obras publicadas na rede procurou obedecer aos critérios de direitos autorais e de raridade. Por causa disso, apenas 25% dos 9 mil folhetos foi disponibilizado para o acesso via internet. O número corresponde aos autores que já caíram em domínio público ou cujos herdeiros autorizaram sua reprodução.

Para o presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, todos os meios de comunicação acabam se constituindo como novos espaços de produção e divulgação dos cordéis. “Muita gente pensou no início que o rádio de pilha acabaria com a literatura de cordel. Pelo contrário, ele serviu como veículo de divulgação para os cordelistas e repentistas”, reflete o cordelista nascido na cidade cearense de Ipu, em 1937.

Onde encontrar

Fundação Casa de Rui Barbosa

Sem a necessidade de cadastro, é possível folhear e imprimir em baixa resolução os cerca de 2340 cordéis do acervo. No entanto, a mecânica de busca do banco de dados é um pouco complicada.

Academia Brasileira de Literatura de Cordel

Possui um bom acervo de cordelistas contemporâneos, mas disponibiliza apenas capas e os versos em texto, sem a diagramação de um cordel impresso.

Fundação Joaquim Nabuco

Apresenta 41 folhetos de cordel do acervo da instituição na íntegra, em formato pdf.

Biblioteca do Congresso dos EUA

Reúne informações, biografias e imagens de folhetos de cordel.O conteúdo, porém, está em inglês.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Fernando Pessoa - Documentário.

Este excelente documentário de 1:05 min. produzido pela Editora Globo apresenta a Vida e comentários sobre as fantásticas Obras literárias e também filosóficas do Poeta Português (e também "brasileiro") Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa que se destacou com a criação de seus Heterônimos Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

LINK DO DOCUMENTÁRIO

http://www.youtube.com/watch?v=ZL8bhv5DjQ8&feature=youtu.be&noredirect=1

Jane Austen foi envenenada?




Jane Austen, a autora de clássicos como Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, pode ter morrido envenenada por arsênico, segundo uma escritora policial que analisou as últimas cartas da romancista britânica. A pista crucial está em um trecho escrito por Austen alguns meses antes de sua misteriosa morte, em 1817.


Descrevendo as semanas em que permaneceu enferma, Austen escreveu: "Estou consideravelmente melhor agora e recuperando um pouco a aparência, que já esteve bem mal, com manchas brancas, pretas e de todas as cores erradas”.


Segundo Lindsay Ashford, escritora policial britânica, o trecho descreve os sintomas de envenenamento por arsênico "que causa manchas na pele se ingerido em doses pequenas por um longo tempo”.


"Conhecido como efeito ‘gota de chuva’, provoca manchas marrom-escuras ou negras em partes da pele, enquanto outras áreas perdem todo o pigmento e ficam brancas”, escreveu Ashford no Daily Mail.


A teoria ganhou consistência quando Ashford descobriu que um mecha de cabelos de Austen, arrematada um leilão em 1948 por um casal americano já falecido, apresentava traços de arsênico


"O arsênico no cabelo de Jane indica que ela havia ingerido o veneno nos meses anteriores à sua morte”, afirmou Ashford.


A morte precoce de Austen, aos 41 anos, há muito tem gerado especulações entre historiadores.


Inicialmente, sua doença misteriosa e fatal foi identificada como doença de Addison, um raro distúrbio das glândulas supra-renais; outros diagnósticos apostaram em linfoma de Hodgkin; lúpus, uma doença auto-imune; doença de Brill- Zinsser (uma forma recorrente de tifo que a escritora contraiu quando criança) e tuberculose disseminada de origem bovina.


"Todas essas condições provocam alguns dos sintomas relatados por Jane, mas nenhum deles é compatível com os descritos na carta”, explica Ashford.


A autora acredita que Austen pode ser sido medicada com remédios contendo arsênico. De fato, o veneno era amplamente prescrito na época para tratar diversas doenças, de sífilis a reumatismo (condição que a romancista admitiu ter contraído).


"Há, é claro, outra hipótese: a de que ela tenha sido intencionalmente envenenada. Talvez seja improvável, mas não impossível”, especula Ashford.


A escritora explora a teoria do assassinato em seu novo romance, "The Mysterious Death of Miss Austen" (A Morte Misteriosa da Senhorita Austen, em tradução livre), cujo foco é a família de Austen, fonte constante de desconfianças e dúvidas, apesar de ter sido minunciosamente investigada.


"Muita coisa desapareceu. Cassandra (irmã de Austen) queimou dezenas de cartas de Jane depois de sua morte – e ninguém sabe por quê”, afirmou Ashford.


Como "cartas e diários não podem e não vão nos dizer o que realmente matou Jane Austen", o mistério sobre o último capítulo da vida da grande escritora provavelmente jamais será desvendado.


É muito improvável que os ossos de Austen sejam exumados para que sejam submetidos aos modernos testes forenses, admitiu Ashford.


"Isso provocaria a indignação dos fãs de Austen, sem falar no grande número de pessoas que alegam ser seus parentes distantes. Mas coisas estranhas aconteceram, e talvez um dia o mistério de sua morte seja solucionado de uma vez por todas”, finaliza.


Disponível em: http://blogs.discoverybrasil.uol.com.br/noticias/2011/11/jane-austen-foi-envenenada.html

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Aplicativo de livro eletrônico da Apple permite ler livros no escuro

A Apple atualizou seu aplicativo que dá acesso a livros eletrônicos com funções como a que facilita a leitura no escuro e a que acrescenta um novo design da área de anotações, informou a companhia nesta quarta-feira.

Com novas fontes como Athelas, Charter, Iowan e Seravek e a possibilidade de visualização da tela cheia, que permite que o leitor se concentre no texto sem distrações, a versão 1.5 do iBooks melhora a estabilidade e o rendimento do programa, destaca a Apple em nota.

A área de anotações incorpora uma novidade bastante útil, já que permite selecionar uma cor para ressaltar certos fragmentos do texto. O aplicativo iBooks para iPad, iPhone e iPod Touch recria uma biblioteca virtual que permite ao usuário colocar sua coleção de livros eletrônicos em uma estante, virar as páginas dos exemplares deslizando o dedo e acrescentar notas à medida que avança na leitura.

Disponível em: http://tecnologia.terra.com.br/noticias/0,,OI5508116-EI12884,00-Aplicativo+de+livro+eletronico+da+Apple+permite+ler+livros+no+escuro.html

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Empresário Eike Batista lança livro para inspirar jovens empreendedores

O empresário Eike Batista teve dois filhos e plantou muitas árvores – de dinheiro. Aos 56 anos, faltava ainda escrever um livro. Não mais. Eike Batista, o X da questão – A trajetória do maior empreendedor do Brasil (Sextante, 161 páginas, R$ 29,90) chega às livrarias neste mês. Quando o homem mais rico do Brasil e o oitavo do mundo resolve escrever sua história, a curiosidade é natural. Espera-se que ele nos conte os bastidores de grandes negociações e – por que não? – revele algumas fofocas sobre sua vida.

Logo no início, Eike diz que a obra não entrará em detalhes sobre sua vida pessoal. Isso será tema de outra publicação, que será escrita pelo jornalista Alan Riding, do jornal The New York Times. O livro tampouco contém grandes segredos empresariais. Tem, sim, um jeitão de livro de autoajuda, como o empresário reconheceu em entrevista a ÉPOCA.

Eike não renega o rótulo. Diz que seu objetivo foi inspirar jovens e ajudar empreendedores. “Muita gente já vinha falando para eu escrever o livro. A gente acaba servindo como exemplo”, diz ele.

O X da questão, uma alusão ao “x” presente no nome de todas as suas empresas (“x de multiplicação”, como explica no livro), foi organizado pelo jornalista Roberto D’Ávila, com base em conversas com o empresário. Eike diz que foi ele mesmo quem escreveu o livro – e não o amigo. O empresário começa o livro pela sua infância e revela que, até os 12 anos, tinha asma. A mãe, a alemã Jutta Fuhrken, matriculou o garoto na natação e o fazia mergulhar na piscina (aquecida), fizesse frio ou calor. O menino Eike sofria de ansiedade com as crises de falta de ar. Em menos de um ano, estava curado, graças às braçadas. Dali ele diz que tirou a lição de que “você cresce com as dificuldades”.

Com 18 anos, morando na Europa e recebendo uma mesada “que dava para apenas metade do mês”, Eike começou a vender seguros de porta em porta. Nessa época, ele diz que aprendeu a ouvir as pessoas, a compreender sinais faciais e a vender, claro. Afirma que levou essa experiência para toda a vida. A lição: “Acredite em si mesmo”.

Em outro trecho, Eike lembra que chegou a levar um tiro pelas costas no garimpo em Alta Floresta, Mato Grosso. Ele xingou um homem que lhe devia dinheiro e, ao se virar e sair caminhando, foi atingido. Por sorte, a lesão foi superficial. Eike diz que ali aprendeu a ser gentil com as pessoas para não fazer inimigos. O símbolo máximo do capitalismo brasileiro inspira-se em Che Guevara para ilustrar a situação: “É possível endurecer sem perder a ternura”.

Foi no garimpo que Eike começou a construir sua fortuna. Ele conheceu garimpeiros que vendiam diamantes no Rio de Janeiro e passou a intermediar o negócio, encontrando compradores na Bélgica e em Portugal. Acabou abandonando a facul-dade de engenharia pela metade e rumou para a corrida do ouro em Goiás, com US$ 500 mil emprestados de dois amigos relojoeiros. Enganado por um sócio, perdeu o dinheiro, e sua dívida chegou a US$ 800 mil.

Com sua lábia de vendedor, conseguiu convencer os joalheiros a injetar mais dinheiro no negócio. “Aquele foi meu pri-meiro road show”, diz ele. Road show é o ritual que antecede o lançamento de ações no mercado financeiro, no qual a empre-sa procura possíveis compradores e fala sobre suas qualidades. Os amigos toparam, e Eike acabou transformando o prejuízo inicial em US$ 6 milhões. Daí não parou mais. Nos primeiros 20 anos como empresário, acumulou uma fortuna pessoal de US$ 1 bilhão. Hoje, segundo a revista americana Forbes, seu patrimônio é estimado em US$ 30 bilhões. É tanto dinheiro que muitas vezes nem as máquinas aguentam. Ele conta que, em 2008, preencheu um cheque de R$ 700 milhões para pagar Im-posto de Renda (sobre a venda de parte de um de seus negócios) e se viu numa situação curiosa. “Não havia no Rio de Janeiro uma caixa registradora capaz de computar tantos zeros. Parece brincadeira, mas tive de ir a São Paulo para que o cheque fosse liberado.”

O livro é repleto de outras passagens saborosas e de conselhos que esbarram em clichês. Seu maior mérito é ter sido escrito por alguém que efetivamente fez o que prega. As prateleiras de autoajuda estão cheias de livros que prometem fazer do leitor um milionário – mas escritos por pessoas que não chegaram nem perto do milhão. “Isso é 100% de incentivo para comprar. As pessoas sabem que eu fiz. Sou o empresário mais multifacetado do planeta. Construí 20 negócios multibilionários em áreas diferentes, começando do zero”, afirma Eike. Ele admite ter tido uma grande dose de sorte.

O homem mais rico do Brasil lembra que ela o acompanha desde criança e lhe valeu o primeiro apelido, dado pela mãe: “Bundinha de ouro”. A expressão, correspondente alemã à nossa “virado para a lua”, não foi incluída no livro, mas ainda tira gargalhadas do empresário. Ao investir em mais um empreendimento novo, desta vez como escritor, a sorte de Eike será no-vamente testada

Disponível em: http://www.midianews.com.br/?pg=noticias&cat=6&idnot=71035

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ciência investiga 'Googles humanos', pessoas que nunca esquecem

O americano Robert Petrella tem uma memória fora do comum: ele é capaz de memorizar todos os números de telefone armazenados em telefones celulares e, ao olhar uma única fotografia de um lance de um jogo do seu time de coração, o Pittsburgh Steelers, é capaz de dizer a data da partida e o escore final.

Petrella tem uma síndrome raríssima, chamada Memória Autobiográfica Altamente Superior (HSAM, na sigla em inglês), na qual o paciente não se esquece de quase nada do que aconteceu com ele na vida.

Quem tem essa condição é capaz de se lembrar o que comeu no almoço hoje ou três anos atrás, ou de recordar com detalhes as notícias que leu no jornal há décadas. Mesmo se quiserem, essas pessoas não podem apagar memórias como o fim de um namoro ou as lembranças de um acidente.

"Eu notei isso durante o ensino secundário, me dava conta que nem todos recordavam o que eu conseguia lembrar, e pensava que era algo incomum, como ser canhoto ou algo assim. Mais tarde, notei que isso tinha outra dimensão. Sempre tive facilidade nos exames, pois lembrava de tudo sem ter feito revisão dos tópicos", disse Petrella à BBC.

Para o americano, a síndrome acaba sendo bastante útil em sua profissão, já que ele é produtor de documentários para o History Channel e o Discovery Channel.

"Às vezes, me recordo de algo que alguém disse há 30 anos, coisas que as outras pessoas não lembrariam, porque foram ditas no momento, e isso pode tornar as relações raras", diz Petrella.
"Mas não tenho problemas em viver no passado. As recordações estão na minha cabeça e são parte de mim, mas não me impedem de viver o hoje e olhar para o futuro."

A HSAM é tão difícil de ser identificada que até então apenas 20 pessoas no mundo – todas nos Estados Unidos – haviam sido diagnosticadas com ela.

Mas um programa sobre a síndrome exibido pela rede de TV americana CBS, e visto por pelo menos 24 milhões de pessoas, ampliou o conhecimento sobre a HSAM.

Desses telespectadores, 500 entraram em contato com os pesquisadores por acreditarem que tinham HSAM. Mas apenas 10 foram confirmadas com a síndrome.

Há apenas cinco anos essa condição começou a ser chamada de Memória Autobiográfica Altamente Superior, quando o especialista em memória James McGaugh publicou um artigo sobre seu estudo de seis anos de uma paciente com os sintomas.

O quadro já foi retratado na ficção, como no conto Funes, o Memorioso, do argentino Jorge Luis Borges, e na série de TV Unforgettable ("Inesquecível", em inglês), que acaba de estrear nos Estados Unidos.

"Provavelmente há pessoas com essa síndrome há séculos, mas suas bases nunca haviam sido investigadas cientificamente. É um quadro muito raro", afirmou McGaugh à BBC.
Para reconhecer a HSAM, os cientistas fazem testes médicos e avaliam os potenciais candidatos com um questionário de acontecimentos públicos ocorridos nos últimos 20 anos. Fatos que vão desde eleições a competições, passando pela a entrega de prêmios e até acidentes aéreos.

Uma pessoa com a Memória Autobiográfica Altamente Superior seria capaz de dizer a data precisa e o dia da semana em que os eventos ocorreram, além de outros detalhes.
Os que obtêm mais de 55% no teste são então interrogados sobre experiências mais pessoais.
'Google humano'

"A família nos dá fotos ou diários para que a gente tenha dados precisos e assim provar as informações das quais eles dizem se lembrar. É muito, muito difícil que um indivíduo que registre (dados como esse) além de um certo tempo, como um nível de detalhes tão específico", afirmou McGaugh. Por isso, eles foram apelidados de

"Googles humanos".

É o caso de Brad Williams, de 55 anos, que vive em Wisconsin. "Me dei conta (da síndrome) participando de concursos de perguntas em bares. Sou fanático por esses concursos e sempre fui melhor e mais rápido do que o restante das pessoas", disse Williams.

"Isso também acontece em episódios familiares: eu sempre consigo lembrar de datas específicas e detalhes de tudo."

Williams diz que ser ter HSAM lhe traz algumas vantagens específicas em seu trabalho como jornalista. "O que eu de fato preciso armazenar ou buscar na internet é um volume bem menor de informações do que o que já está na minha cabeça."

No entanto, nem todos os que possuem esse tipo de memória festejam sua condição.
É o caso de Jill Price, a paciente que procurou especialistas por não poder mais suportar seu constante exercício de se lembrar de tudo. Foi o caso dela que serviu de gatilho para os estudos.

"É incessante, incontrolável e imensamente cansativo. As lembranças vêm, simplesmente chegam na minha mente. Não posso controlá-las", escreveu Price em sua autobiografia The Woman Who Can’t Forget (A Mulher que Não Consegue Esquecer, em tradução livre do inglês).

Em seu caso, a HSAM acabou complicando suas relações com as pessoas. Entre os pacientes de McGaugh não há nenhum casado ou com relações estáveis.
No entanto, o especialista afirma que casos de insatisfação como os de Price são a minoria.
"A maioria acredita que é um dom. Se questionados se prefeririam não ter a síndrome, eles dizem que não mudariam isso por nada."

Busca no cérebro

Entre esses pacientes, está a atriz Marilu Henner, conhecida pela série de TV Táxi, do fim dos anos 1970. Para ela, visualizar a vida em forma de um calendário tornou mais fácil a tarefa de atuar.

A atriz agora dá palestras motivacionais e escreveu um livro para ajudar outras pessoas a ativar sua memória autobiográfica.

"Não tenho problemas em viver com o passado: as lembranças estão na minha cabeça e são parte de mim. Não me impedem de viver o hoje ou olhar para o futuro".

O neurobiólogo McGaugh considera, no entanto, que a HSAM é uma condição pré-existente, que se mantém ao longo do tempo e que ainda carece de explicações neurológicas.

Por ora, a recomendação aos portadores da síndrome é que não encarem sua condição como um grande peso e que não se exponham a circunstâncias traumáticas. Não são bons candidatos, por exemplo, para se alistarem no Exército ou seguir para a guerra.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

“A coisa mais importante nos próximos dez anos é conservar energia”

A calça cáqui e a camiseta preta estampada com o homem vitruviano de Leonardo Da Vinci dizem muito sobre David Cahen, o informal e premiado cientista que comanda o departamento de energia alternativa do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel. Comunicativo e bem-humorado em sua curta apresentação no fórum de sustentabilidade do festival SWU, Cahen provocou a plateia após afirmar que, para alguns países, não há outra alternativa de energia limpa a não ser a nuclear. “Vocês aí devem estar pensando: este cara está louco, vamos lançar ovos e tomates nele”, disse em tom irônico. Cahen, porém, tem argumentos sólidos que sustentam esta e outras de suas opiniões. No Instituto Weizmann desde 1982, ele desenvolve estudos sobre novas células solares voltadas à geração de energia. Algumas de suas pesquisas, relacionadas a biocombustíveis, podem interessar a cientistas brasileiros. Confira mais detalhes na entrevista concedida pelo pesquisador a Época NEGÓCIOS.


Fala-se muito sobre gerar mais energia a partir de fontes renováveis, mas também é necessário elevar a eficiência no fornecimento de energia para diminuir as perdas. Os países estão investindo em redes inteligentes na proporção necessária?

A coisa mais importante a se fazer nos próximos dez anos é conservar a energia. Os governos deveriam pressionar as companhias a substituir plantas antigas de geração de energia por unidades mais eficientes. Hoje, as perdas de energia chegam a 70% de uma usina. Com maior eficiência, poderiam cair para algo entre 30% e 50%. É uma grande diferença. Nossos carros podem ser mais eficientes. Eletroeletrônicos podem ser mais eficientes. É muito mais barato economizar energia do que gerar energia. Deveria ser uma prioridade.


A demanda mundial por energia é constante mas, por outro lado, novos modelos de automóveis, como os híbridos ou elétricos, ambientalmente corretos, podem elevar a pressão por mais energia. Como resolver esta nova questão?

Uma empresa chamada Better Place, fundada por um ex-aluno meu, Shay Agassi, oferece um sistema de troca de baterias: em um caso de emergência, o motorista de um carro elétrico pode, ao invés de recarregá-la (o que exigiria tempo) trocá-la por uma nova. Agassi vem pesquisando os hábitos dos motoristas de carros híbridos e elétricos para oferecer a eles soluções personalizadas. Mas a parte mais interessante é a seguinte: digamos que em determinado local existam um milhão de carros elétricos e, na maior parte do tempo, eles não sejam utilizados. Eles poderiam, então, estar plugados na tomada a maior parte do tempo em que não estivessem rodando. Numa estimativa modesta, teríamos 500 mil carros conectados à rede elétrica em dado momento. Todas aquelas baterias poderiam ser utilizadas para armazenar energia de fonte eólica ou solar. Os carros elétricos proporcionariam armazenamento de energia gratuito. Para mim é uma brilhante ideia. Esta tecnologia está sendo desenvolvida.


Em sua apresentação, você afirmou que países como Japão e China continuarão usando a energia nuclear por falta de opções de energia limpa na proporção necessária. Existem alternativas mais seguras para estes países, para o médio prazo?

Um dos principais problemas do processo atual é que ele gera resíduos radioativos. Existem, porém, outras opções, como a que utiliza o tório, um elemento de mais fácil acesso que o urânio. A Índia tem um programa de pesquisa deste sistema, muito mais seguro do que o baseado em urânio. Os resíduos do tório são, em sua maioria, nobres, e é muitíssimo mais difícil fazer uma bomba atômica a partir dele. O problema é que este processo é muito caro e muito já foi investido em usinas nucleares. Na Alemanha, a rede de eletricidade está conectada a de outros países, como Suécia e Itália. Se há falta de energia no país, eles podem obtê-la com alguns vizinhos. Para países gigantes, como China e Índia, ou isolados, como o Japão, isso é muito difícil. Não sou fã da energia nuclear, mas não consigo ver outra alternativa de energia para estes países, na escala necessária. Não neste momento.


Suas pesquisas estão relacionadas a novas células solares. O Brasil tem grande potencial para gerar energia a partir do sol, mas ainda não o faz como poderia... Porque vocês têm muitas fontes limpas disponíveis. E todos afirmam que a energia solar é muito cara. Por que, não só no Brasil, como em outras partes do mundo, a energia solar não está tão disseminada? É preciso desenvolver tecnologias mais eficientes? Falta incentivo político?


As duas coisas. Uma melhor eficiência ajudará. Contudo, no momento em que for cobrado o preço real das energias fósseis, a diferença de custo entre uma e outra será muito pequena. Um projeto de energia solar demora cerca de dois anos para se pagar. Uma usina termelétrica a carvão, seis semanas. Quem investe em um empreendimento de energia fóssil não arca com o prejuízo deixado para as próximas gerações. Nem com o fato de utilizar mercúrio no processo, mesmo nas plantas mais modernas.

Que outros fatores precisam ser contabilizados?

A forma de remuneração deveria ser diferente. Empresas que produzem energia limpa poderiam receber mais por estar retirando carbono da atmosfera, enquanto as geradoras de energia de fonte fóssil pagariam para poder emitir poluentes. Esta medida se transformaria em uma forma de subsídio para as energias eólica e solar. Há muitos países onde estas formas de energia já são competitivas. Em outros, reverter a situação é mais difícil. Qual é o lobby mais poderoso do mundo? O do petróleo.


Dentre as pesquisas desenvolvidas por sua equipe no Instituto Weizmann, há alguma tecnologia em desenvolvimento que pode vir a ser aplicada no Brasil?

Temos projetos sobre componentes básicos para biocombustíveis. Acredito que algumas descobertas seriam muito úteis para pesquisadores brasileiros que vêm estudando as próximas gerações de biocombustíveis. Na área solar, estamos trabalhando em pesquisas que estão 20 anos à frente do mercado. São novos materiais, não biológicos, considerados pouco aplicáveis em células solares e que são estruturados numa escala nanométrica. Creio que teremos algo aplicável à prática em 20 ou 25 anos. No Brasil, a área mais interessante é a de biocombustíveis. Seria interessante manter uma comunicação mais ampla com outros países, pelo fato de o país estar se tornando uma liderança econômica. Outras nações estão olhando para vocês.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

O mundo em transformação : Crianças e adolescentes estão certos que não havia civilização antes do Google e da Apple

Eu me sinto um dinossauro. Surpreso, mas fascinado com este mundo em turbilhão. Vou fazer 60 anos em dezembro. Quase tudo que me cerca era inimaginável quando eu era criança. O mundo foi reinventado diante de mim, estes anos todos. Na minha infância, em Marília, no interior de São Paulo, não havia televisão. Telefone só para a elite. Era preciso se inscrever e aguardar cinco, seis anos para a instalação de uma linha. Ou comprá-la a peso de ouro, de alguém que a transferisse, manobra impensável para minha família de orçamento limitadíssimo. Hoje o mundo é dos celulares. Recentemente, meu aparelho caiu no chão e quebrou. Entrei em surto até conseguir outro, novinho, em que coloquei o mesmo chip. Aposto que já tem psicólogo tratando crise de abstinência de celular. A primeira televisão de minha família, quando me mudei para São Paulo, aos 15 anos, era em preto e branco. O tempo voou. E com ele as invenções se insinuaram na minha vida: TV colorida, CD, videocassete, DVD e Blu-ray. Quando dou palestras em escolas, tento explicar como era a vida sem e-mail e videogame. Crianças e adolescentes me encaram desconfiados. Devem achar que sou maluco. Estão certos que não havia civilização antes do Google e da Apple. Já pensei em criar um conto de fadas para explicar. Algo assim:

– Há muitos e muitos anos, em um tempo em que não existiam e-mail, Twitter ou Facebook, vivia uma linda princesa...

Decidi ser escritor aos 12 anos, quando descobri os livros de Monteiro Lobato, emprestados por uma vizinha. Sonhava com uma máquina de escrever. Ainda lembro da tarde, aos 13 anos, em que meu pai subiu as escadas de nosso sobradinho e anunciou o presente: uma Olivetti portátil, comprada à prestação. Papai era ferroviário, e a máquina pesou nas contas. Mas eu queria ser escritor, o que fazer? Em seguida me inscreveu num curso de datilografia, em que aprendi a batucar o teclado com todos os dedos. (Os cursos de datilografia também sumiram, junto com as máquinas de escrever, é claro.)

Agradeço papai para sempre. Hoje sou autor da Rede Globo. Escrevo os capítulos das novelas com muita velocidade. Sorte minha ser datilógrafo formado.

Comprei meu primeiro computador pessoal com pouco mais de 30 anos. O protecionismo nacional na área de informática era absurdo. O tal computador parecia movido a lenha. Mas adorei. Principalmente porque acabou a guerra com os vizinhos do prédio que não suportavam o plec, plec, plec da máquina, pois sempre escrevi de madrugada. Na ocasião, eu trabalhava como editor em uma grande revista. Um colega torceu o nariz. Achava o computador algo muito esquisito. Mostrei a enorme redação repleta de máquinas de escrever. Banquei o futurólogo:
– Um dia todas serão trocadas por computadores.
– Duvido!

Não demorou cinco anos. Assisti à informatização do jornalismo. Foi cruel, como em outras áreas. Muitos ganharam estágios para absorver a nova tecnologia. Outros não. E acabaram expelidos do mercado de trabalho. Cheguei a ajudar um ex-diretor de arte a arrumar vaga de zelador de prédio. Há uma necessidade constante de me manter atualizado. Sempre existe um novo programa, aparelho, invenção à espera. Sou autor de livros, novelas de televisão, peças de teatro, crônicas e inumeráveis artigos. Ganhei prêmios. Mas acabo derrotado por qualquer garoto de 8 anos, capaz de, diante de um modelo novo de celular, desvendar no ato programas que incineram meus neurônios.

Cursei alguns anos de faculdade de história, na Universidade de São Paulo. Tento me distanciar e entender o que se passa. Creio que, daqui a 100, 200 anos, um historiador vai olhar para a minha, a sua vida e teorizar que vivemos no bojo de uma mudança de Era. Tão profunda quanto a da Antiga para a Média e desta para a Moderna e a Contemporânea. Qual será o fato que determinou a passagem? A invenção do iPad? Steve Jobs terá a mesma importância de Colombo? Seremos, eu e você, objetos de estudo. Até neurológico.

– Como os cérebros se adaptaram a tantas mudanças?

As invenções são o aspecto mais visível de roupas, restaurantes, livros, viagens, teorias, jeitos de ser e de amar. Vou escrever sobre a realidade em contínuo movimento. Sobre nossa época, desafiadora e fascinante. E contar como meus miolos fervem ao descobrir que alguma coisa inexistente até ontem se tornou absolutamente essencial, e já não posso viver sem ela. Nos anos 1960, os hippies anunciavam o advento da Era de Aquário. Pois é. Seja qual for o nome, a Nova Era já chegou.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Penguin lança serviço para autores independentes de livros eletrônicos

Num sinal de que as principais editoras de livros estão finalmente reconhecendo o potencial do setor de edição autônoma de livros digitais, o Penguin Group (USA) lançou na quarta-feira um serviço para ajudar escritores a publicar seus próprios livros.

Por uma taxa entre US$ 99 e US$ 549, mais um porcentual das receitas obtidas com eventuais vendas, uma subsidiária da Penguin chamada Book Country vai oferecer uma série de ferramentas – desde um conversor profissional para o formato e-book até programa para criar capas – para ajudar um escritor a deixar seu trabalho disponível em lojas de livros digitais e serviços de impressão sob demanda.

O negócio da auto-edição pode ajudar a Penguin a descobrir novos escritores, ao mesmo tempo em que cria um canal de receitas adicional.

A Penguin Group (USA) vem investindo "um substancial montante de dinheiro" em tecnologia para lançar o novo serviço", diz o diretor-presidente David Shanks. "Se algum desses livros chegar à lista de best sellers, o serviço pode ser muito bem-sucedido."

A Penguin poderia oferecer aos escritores mais bem-sucedidos na auto-edição contratos para serem publicados do modo tradicional caso eles desejem, acrescentou.

Por outro lado, o negócio de edição tradicional da Penguin não pretende atrair autores que a editora tenha rejeitado no negócio de auto-edição. Molly Barton, diretora global para a área digital da Penguin, disse que "não seria apropriado sugerir um caminho que envolvesse comissões" a um autor cujo original tenha sido rejeitado" pela Book Country.

Turbinado pelo aparecimento de e-readers e pela crescente popularidade dos e-books, o número de títulos auto-editados nos Estados Unidos triplicou para 133.036 em 2010, ante 51.237 em 2006, segundo a corretora R.R. Bowker LLC, que acompanha o setor de editoras.

E enquanto muitos ainda vendem poucos exemplares, a edição por conta própria pode ser extremamente lucrativa para outros. Amanda Hocking, autora de livros para jovens adultos, juntou-se neste mês ao Kindle Million Club, da Amazon.com Inc., por ter atingido vendas de mais de um milhão de cópias digitais de seus livros. Ela fechou um negócio com a editora St. Martin´s Press para republicar sua trilogia "Trylle", em papel e meio digital, mais um quarteto de novos títulos a serem pulicados posteriormente.

Muitas empresas já atendem escritores de autônomos, incluindo as distribuidoras de e-books Smashwords Inc., Amazon.com e Barnes & Noble Inc.

A Penguin está usando o Book Country, um website especializado no gênero ficção, como base para seu novo serviço. Escritores já publicam originais no site, especializado em romances, fantasia, ficção cientifica, terror e mistério. Usuários comentam os manuscritos, e oferecem conselhos sobre a edição.

A Penguin diz que a Book Country, lançada em abril, já atraiu ao redor de 4.000 participantes, que publicaram aproximadamente 500 originais, alguns acabados, outros não – e pelo menos três desses autores já encontraram agentes para os representarem.

Disponível em: http://online.wsj.com/article/SB10001424052970203611404577042490682657330.html

A experiência de salvar judeus na Alemanha nazista marcou a vida e a obra de Guimarães Rosa e sua mulher Aracy


A historiadora brasileira Mônica Schpun, da École des Hautes Études em Sciences Sociales, de Paris, começou a pesquisar a vida de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (1908-2011), segunda mulher do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), para fazer justiça à história de Aracy, que, funcionária do consulado brasileiro em Hamburgo, ajudou a conceder inúmeros vistos de entrada no Brasil a judeus, apesar das instruções em contrário de circulares secretas do Itamaraty nos tempos de Vargas.

A história nunca foi contada em profundidade e é comum atribuir todo o mérito ao escritor, pois ele é que teria o poder real de assinar os passaportes. O projeto acaba de virar o livro Justa – Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus trocando a Alemanha nazista pelo Brasil (Record). Essa tão esperada biografia é importante, pois falar de Aracy é não só descobrir a grande influência que ela teve na obra do escritor, como voltar ao momento em que Rosa viveu na Alemanha, onde os dois se conheceram e viram juntos os horrores da guerra e do regime nazista. Ao mesmo tempo, essa experiência permitiu ao escritor ir mais a fundo nas “maravilhas da cultura alemã”, usada, mais tarde, como fermento de suas maiores criações, cujas expressões máximas aparecem na violência de Riobaldo e no dilema faustiano da trajetória do vaqueiro de Grande sertão: veredas, aliás, dedicado a “Ara”, apelido de Aracy. São, note-se, experiências contraditórias da mesma cultura que resultaram num dilema cuja resolução levou Rosa a repensar sua escrita. O ponto em comum entre elas é Aracy.

Batizada de “Anjo de Hamburgo”, ela é a única mulher citada no Museu do Holocausto, em Israel, como um dos 18 diplomatas que salvaram judeus da morte, e a única brasileira merecedora dessa honraria, ao lado do embaixador Souza Dantas, que concedeu, desobedecendo ordens do governo varguista, vistos de entrada no Brasil para judeus franceses. Em 1982, ela foi reconhecida como “Justa entre as Nações”, um título honroso dado por Israel para pessoas que ajudaram, com risco de vida, judeus perseguidos. Para ser merecedor da honraria, é preciso que várias testemunhas forneçam informações sobre as ações do “Justo” que justifiquem sua nomeação. Aracy contou com inúmeras recomendações de pessoas às quais ajudou. Apesar disso, paira sobre ela um estranho desconhecimento. Ainda mais grave é que há quem negue que teve qualquer importância na obra do marido, apesar das três décadas de convivência harmoniosa e amorosa. A biografia de Aracy traz elementos para mudar isso, não apenas resgatando sua ação corajosa na Alemanha nazista, como também jogando novas luzes sobre seu papel na vida e obra do escritor, incluindo uma pouco discutida influência sobre a atitude de Rosa diante da política, ponto controverso na sua suposta trajetória de “apolítico”.

Os dois se conheceram em 1938, no consulado brasileiro da cidade portuária de Hamburgo, para onde o então jovem diplomata foi indicado para seu primeiro posto, o de cônsul adjunto, após concluir seus estudos no Itamaraty. Foi também naquela cidade que adotou um novo hábito, celebrizado em Grande sertão: veredas, a escrita em cadernetas de anotações (herdado, como afirma, do colega Machado de Assis). O resultado é o chamado “diário alemão”, escrito entre 1938 e 1942, uma notável e moderna “colagem” de recortes de jornais, citações, anotações precisas sobre o horário dos alarmes de bombardeios, lista de livros, relação de temperos, comentários sobre suas constantes visitas ao zoológico, descrições de paisagens e climas, ideias para futuros romances e críticas às medidas contra os judeus.

Há, porém, entre esses elementos tão diversificados uma inter-relação que não escapa ao olhar dos especialistas, como arquivar, na mesma página, a notícia da morte de um líder nazista ao lado da observação de que vendera seu carro. O texto completo, cuja publicação estava prevista para o final deste ano, permanece inédito, embargado pelas herdeiras de Rosa, embora esteja totalmente organizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Quando o escritor desembarcou em Bremen, já separado da primeira mulher, que ficou com as duas filhas no Brasil, ainda não havia publicado nenhum livro, trazendo na bagagem a sua primeira obra, que pretendia revisar nas pausas do trabalho diplomático, então ainda chamado Contos e assinado por Viator. Uma mostra da importância do “diário alemão” são várias anotações “casuais” sobre os vários significados das “sagas”, forma germânica de contar histórias, e que foram fundamentais no formato e na revisão do título da primeira criação. “Ele revisou o livro e, em 1946, deixou de lado o título Contos porSagarana, um hibridismo da fusão de ‘saga’ com tupi ‘rana’, que significa ‘parecido’”, observa o professor de literatura Reinaldo Marques, da UFMG, um dos responsáveis pela edição. “Isso é só uma parte do que se pode descobrir no diário. No todo, é o único testemunho de um escritor do seu porte sobre um dos momentos mais trágicos do século XX, signo contundente do esgotamento do projeto da modernidade”, nota o pesquisador.

Rosa chega à Alemanha admirador da cultura alemã. “Mas não ignora o nazismo e fica indignado com a perseguição aos judeus. Seu encontro com a cultura alemã torna-se ambivalente, um choque entre o passado, com conotações positivas, e um presente nefasto”, afirma o professor da UFMG Georg Otte, também da equipe do “diário alemão”. “Havia duas saídas para o dilema. Uma, a ironia, como quando escreve ‘Heil Goethe!’, paródia da saudação hitlerista, após assistir ao Fausto. Outra era voltar-se para a natureza ao seu redor como território neutro que permite ao ‘eu’ evitar o confronto entre as imagens conflitantes dos alemães. A ‘paz’ da natureza ajuda a resistir à guerra que macula a imagem preconcebida dos alemães.” E foi com Aracy que observou essa Alemanha perversa. “Passeio hoje com Ara. Num recanto vi uma praiazinha para crianças. Ondazinhas vêm lamber a praia de brinquedos. Mas para estragar toda a mansa poesia do lugar arvoraram num poste uma taboletazinha amarela: ‘Lugar de brinquedo para crianças arianas’.” Ou, ainda: “Passeio de automóvel com Ara. Até crianças de 4 anos, ou menos, com o distintivo amarelo, infamante!”. Aracy acaba por colocar em xeque o Rosa “apolítico”, algo que escapa a muitos historiadores.

A reunião da biografia de Aracy ao lado do diário é uma trama complexa e plena de sutilezas que pode mudar a nossa forma de entender o universo rosiano, só compreensível quando se relacionam as várias facetas do escritor como diplomata, literato e um paradoxal observador da realidade crua da violência da guerra, que o leva, na contramão, para a fantasia, para a animalização do mundo como forma de sobreviver e digerir, pela negação, o mundo moderno. Com Aracy, teve, além da companheira de quase três décadas, uma leitora atenta e participativa em suas criações, bem como um modelo de coragem e posicionamento diante das injustiças. Afinal, ao ser perguntada por que se arriscara ao conceder vistos a judeus ela respondeu: “Porque era justo”.

Curiosamente, será com quase as mesmas palavras que Rosa irá justificar a sua participação nas ações de Aracy e descrever o seu credo como diplomata anos mais tarde numa entrevista. É possível perceber como Ara o ajuda a adotar sua atividade diplomática numa nova perspectiva e de como essa visão irá moldar a sua nova forma de perceber o mundo para transformá-lo em literatura de primeira modernidade. De um só golpe, Rosa absorveu o lado “bom” dos alemães, sua cultura, e o lado “perverso” dessa mesma civilização, encontrando para esse dilema soluções que serão a chave de sua nova literatura. Nada disso, porém, seria possível sem a presença de Aracy ao seu lado naquele momento fundamental.

Como essas duas trajetórias se reúnem? Aracy, filha de pai português e mãe alemã, aproveitou-se da nacionalidade materna para deixar o país com o filho após se separar do marido. Na Europa, não enfrentava o assédio que as mulheres divorciadas sofriam no Brasil, vivendo em liberdade. Em 1935, com a interferência do chanceler Macedo Soares, conseguiu um emprego na divisão de passaportes do consulado em Hamburgo. Nascidos, Rosa e ela, no mesmo ano (Aracy fazia aniversário com Hitler em 20 de abril), logo que se conheceram se apaixonaram. “Fui ver casas com o cônsul adjunto!”, anota. Em um mês o tom esquenta: “Estive linda. Ele me ama muito, muito!”. Já podiam compartilhar segredos. “Sem ser diplomata, Aracy tinha um cargo administrativo estratégico, lidando diretamente com a concessão de vistos, ainda que sem autoridade para assiná-los, privilégio do cônsul-geral e de seu adjunto”, explica Mônica. “Aracy ignorou a limitação do número de vistos concedidos aos judeus imposta pelo Estado Novo e continuou a prepará-los, facilitando o embarque de quase uma centena deles para o Brasil. Para que o cônsul-geral Souza Ribeiro assinasse os vistos, colocava-os entre a papelada e conseguiu passaportes sem o ‘J’ em vermelho dos judeus com amigos”, conta a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo (USP), autora do recém-lançado Cidadão do mundo(Perspectiva), continuação de suas análises da diplomacia antissemita do regime de Vargas.

Forjava atestados de residência falsos, para poder atender judeus de outras cidades onde havia diplomatas menos lenientes. Chegou a transportar na mala do carro um judeu até a fronteira da Dinamarca, só escapando pela placa do corpo consular. Visitava judeus para levar mantimentos e dava conselhos sobre como repatriar bens para fora do país, guardando valores de judeus até o embarque para evitar que fossem roubados por nazistas. “Rosa dizia que qualquer dia ela iria desaparecer. Afinal, era na casa dela que se abrigavam judeus fugitivos”, conta Tucci.

Mas era algo incoerente quando falava do papel do marido nas ações. “O Guima tinha um papel fundamental. Era ele que assinava os passaportes”, disse numa entrevista. Em outra declarou: “Nunca tive medo, quem tinha medo era o Joãozinho. Ele dizia que eu exagerava, que estava pondo em risco a mim e a toda a família, mas não se metia muito e me deixava ir fazendo”. Para Mônica, trata-se de uma questão de gênero. “Além de ele ser o diplomata, Aracy é citada como a viúva do Rosa. Mas o título de ‘Justa’, pessoal, foi atribuído somente a ela”, nota.

Mais importante, porém, do que os créditos pela ajuda aos judeus é discutir a importância de Aracy na vida e obra do escritor. Duas pesquisadoras, Elza Miné, da USP, e Neuma Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará (UFC), estudaram as cartas, ainda inéditas, do casal. “Serás tudo para mim: mulher, amante e companheira. Sim, querida, hás de ajudar-me a escrever os nossos livros. Tu mesma não sabes o que vales. Eu sei. Serás, além de inspiradora, uma colaboradora valiosa, apesar ou talvez mesmo por não teres pretensões de ‘literata pedante’”, escreveu Rosa em 1942. Em 1938, quando ela saiu de férias e ele ficou em Hamburgo, jurou: “Tenho sonhado o dia inteiro acordado com você. Reafirmo que serei absolutamente fiel, não olhando para as alemãzinhas, as quais, por sinal, todas, todas, viraram sapos!”.

“Revela-se, nestas cartas, além do amor, a importância de Aracy como leitora primeira de Rosa”, nota Neuma. “O teu, o nosso Sagarana está quase pronto. Pegue um exemplar para nós. Seria uma alegria dupla: a chegada de ARA e SAGARANA. Mas em caso de perigo, joga fora o Sagarana e venha só a ARA, que é 300 bilhões de vezes mais importante para mim”, escreve em 1946. O resumo está em outra carta: “Os outros eu conheci por ocioso acaso. A ti vim encontrar porque era preciso”.

Alguém tão zeloso deixaria a amada tão exposta? Essa é a tese que Mônica contesta, na contramão de estudos que defendem o total antissemitismo do Estado Novo como política oficial e secreta. “A gestão da imigração judaica pode ser incluída num movimento maior como a discussão sobre a restrição aos japoneses, que antecedeu medidas contra os judeus. O segredo era normal num Estado autoritário e as críticas sofridas em 1934, por causa das medidas de imigração, levaram as autoridades a manter essas discussões, não só dos judeus, em sigilo”, observa.

Para ela, lei de cotas não foi intervenção original brasileira, nem o país estava isolado nisso, com os EUA nos precedendo em uma década. “As bases da política migratória restritiva, mesmo as étnicas, nasceram antes dos refugiados judeus.” A famigerada “circular secreta 1.127”, sobre a entrada dos judeus, já afirmava que: “Por informações repetidamente recebidas das missões diplomáticas, o governo federal tem conhecimento de que, para o Brasil, se vêm dirigindo numerosas levas de semitas e que os governos de outras nações estão empenhados em afastar de seus territórios”. O que, segundo Mônica, revela que a motivação da medida seriam informações exageradas de representações diplomáticas que falavam numa “invasão de levas de semitas”. Além disso, o interesse do governo era atrair braços para a agricultura, para a qual eram reservados 80% dos vistos.

“Claro que houve racismo, mas não havia regras claras e tudo dependia da boa vontade do funcionário e de seus preconceitos pessoais. Os brasileiros eram diametralmente opostos aos nazistas, que queriam isolar os judeus. Aqui, o temor, e não só sobre judeus, era a formação de ‘quistos’ de imigrantes não integrados, por causa da política de Vargas que pregava a união dos imigrantes à sociedade nacional.” Era uma política migratória restritiva a todos e também aos judeus de modo específico. “Havia mais temor dos alemães no Brasil, vigiados pelo governo. A explosão do antissemitismo internacional foi acompanhada por uma indiferença quanto ao destino dos judeus. Isso incidiu mais nas restrições do que o antissemitismo das elites dirigentes nacionais, já que os judeus não foram reprimidos por Vargas”, analisa Mônica. Aqui, no lugar da degeneração, o estranho trazia progresso. “A mitologia nacional desvalorizava o negro e valorizava o imigrante que pudesse reconstruir-se e fundir-se nas massas.”

Assim, sem desmerecer a coragem de Aracy, suas ações não eram um risco com os nazistas, que queriam se livrar dos judeus. O risco era o governo brasileiro. “Riscos corridos com gente como Souza Dantas que, submetido a inquérito, não sofreu sanções. O mesmo não aconteceu com o ‘Justo’ português, o embaixador Aristides de Sousa Mendes, cônsul em Bordeaux, que concedeu vistos a mais de 30 mil judeus até ser destituído pelo regime de Salazar e morrer na miséria.” Nada disso diminui a coragem e o filossemitismo de Aracy que, em 1950, em Paris com Rosa, reclamava da dificuldade de obter vistos para judeus, embora sem nenhuma função na embaixada. Esse caráter combativo ajudou Rosa a reforçar e moldar seu ideal de diplomacia. “Um diplomata é um sonhador e eu jamais poderia, por isso, ser um político, que vai praticando atos irracionais. Talvez eu seja um político, mas desses que só jogam xadrez quando podem fazê-lo a favor do homem. O político pensa em minutos. Eu penso na ressurreição do homem”, disse numa entrevista, estabelecendo uma inusitada separação entre diplomata e político.

“Ao falar sobre suas ações em Hamburgo, dizia que como ‘homem do sertão’ não podia presenciar injustiças. A tirania do político era, para ele, injustiça. Para ele, a atividade dos Rosas em favor dos judeus não era exemplo de ação política, algo que o nazismo fazia, mas de ação diplomática. Quando nada escapa da tirania, é preciso abrir uma brecha no muro da injustiça. Isso motivou a separação: a razão de justiça”, analisa a embaixadora Heloísa Vilhena de Araújo, autora de Guimarães Rosa, diplomata. Só havia libertação no sonho. “Aqui se invertem os conceitos. Na verdade, a realidade foi a ação diplomática de Rosa, ao salvar vidas; o sonho, ou pesadelo, foi o nazismo. Assim, em Hamburgo, o desligamento da política significou um ato político em seu mais alto grau de refinamento. Com ele, a política encontra seus limites e vira-se contra si mesma.”

Isso se apresenta de forma clara nas anotações do “diário alemão”. “Estou escrevendo na cama, ao som dos estampidos da Flak (artilharia antiaérea). São como socos retumbantes dados por punhos enormes no bojo elástico do ar alto. Outros ribombam festivos. Uns tocam tambor”, anotou em 1940. “São registros nitidamente poéticos, apesar da fúria do momento. Para não sucumbir ao horror da guerra, os sons são alegorias de um gigante de ‘enormes punhos’. O texto rosiano vira uma fuga da ‘corriqueira problemática cotidiana’. Não aderir à crueza da realidade é critério imprescindível para a sobrevivência”, observa João Batista Sobrinho, professor da UFMG e autor de O narrável da guerra e o céu de Hamburgo(2009).

O mesmo pode explicar as inúmeras visitas ao zoológico de Hamburgo, listadas no diário, momento para reflexão, anotações e desenhos de animais. “A fixação na vida animal e na observação quase obsessiva da natureza alemã seria a proposta poética de Rosa de deslocar não só traços comuns da sobrevivência humana, mas também da ameaça de morte causada pela guerra. Nas anotações se animaliza a guerra, que se naturaliza, um esforço de diminuir sua ação destrutiva”, nota a pesquisadora da UFMG Eneida Maria de Souza, do grupo do “diário alemão”. “A ‘metaforização’ da guerra, graças à mediação animal, não é apenas um reforço da barbárie, mas, ao contrário, atração mútua e uma inquietante familiaridade.” Escreve Rosa: “Estou trabalhando o último trecho de ‘O burrinho pedrês’. Mugiram as sirenes. Alarme!”. Essa é uma das muitas passagens “animalizadas” dos bombardeios, capazes de “tingir as nuvens com cores de zebus”, com “canhões se acelerando em tempo de grugulejo de peru irado”. “São associações que fazem a leitura do espetáculo político como espetáculo sertanejo, um ‘estouro da boiada’. É a metamorfose operada pelo sertanejo-escritor em meio às bombas. A leitura da guerra ocorre pelo olhar oblíquo do diarista-escritor, empenhado na descoberta constante de uma linguagem capaz de transformar fatos em ficção, impressões pessoais em criações de linguagem”, diz Eneida.

Há mesmo a culpa pela impotência como em alguns contos do livro Ave, palavra: “O mau humor de Wotan”, “A senhora dos segredos” e “A velha”. Nos dois últimos, o narrador trabalha numa embaixada e suas personagens, mulheres, pedem ajuda para sair da Alemanha. O narrador nega o visto. “É uma nova forma diversa de falar sobre a barbárie nazista, pelas mulheres e não a partir dos líderes masculinos. Elas são pessoas comuns, abaladas pelos acontecimentos, vítimas impotentes, incapazes de controlar a história e sujeitas às decisões do regime”, analisa o historiador da USP Jaime Ginzburg, autor de Guimarães Rosa e o terror total (2008). “Não se pode salvar ninguém, embora o Brasil apareça como esperança de libertação. O narrador também não controla o processo histórico e revela-se a limitação da sua capacidade de intervenção na violência da guerra.” Nos textos literários de Rosa há uma problematização da atuação do Brasil (e do próprio escritor-diplomata) nos anos em que judeus tiveram vistos negados.

“Disso resulta a importância de analisarmos a reunião entre Rosa e Aracy na ajuda aos judeus. O diplomata convive com o escritor, à medida que o sujeito se volta tanto para as questões de política exterior como para a construção de um universo fabular. Foi a experiência do diplomata, com a mulher, que revelou a convivência entre o embaixador e o homem do sertão, valente e destemido”, avisa Eneida. “Também ajudou a construir a relação entre a natureza e o mundo da violência de seus livros. Uma prática nascida do contato com a cultura europeia em crise de guerra e distorção dos princípios de cidadania e liberdade, levando o escritor a desconfiar do apelo da racionalidade moderna, contaminada pela destruição e ruína dos valores”, avalia a pesquisadora.